Tempos de obscurantismo

18/04/2021 02:59

 

“Em primeiro lugar, deve-se declarar que o obscurantismo não é simplesmente uma ignorância fatual ou uma falta de esclarecimento. O obscurantismo não é um fenômeno da natureza. Pode haver estima e sede por conhecimento em um homem ignorante e não iluminado. Da mesma forma, ainda é impossível nomear como obscurantista o ingenuamente ignorante, que vive uma vida vegetativa — uma vida que ainda não germinou determinadas reflexões cognitivas. O obscurantismo é uma reflexão sobre o conhecimento e a iluminação. O obscurantismo é um princípio; uma atitude primária em relação ao conhecimento e à iluminação em si, e não uma condição fatual. Enquanto as massas obscurantistas são, via de regra, sombriamente ignorantes, os ideólogos e líderes obscurantistas podem ser pessoas inteligentes, instruídas e esclarecidas. Os obscurantistas são instigados por instintos e emoções, mas a ideologia obscurantista pode ser o fruto de uma intensa atividade da mente e do conhecimento. Para os próprios ideólogos do obscurantismo, eles podem ser ou não obscurantistas — mas para os outros, eles são. Aqui localizamos uma característica básica do obscurantismo. O obscurantismo é um fenômeno social, não individual, e socialmente agressivo em seu interior. É plausível denominar de obscurantista a luta de princípios ofensivamente agressiva contra o conhecimento livre e a cultura intelectual criativa. O obscurantismo é um medo social da luz — um amor social pelas trevas, que enxerga a si mesmo como bom, e tem por má a “perigosa” luz. Em princípio, o obscurantismo é a convicção de que a luz, o pensamento livre, a filosofia e a criatividade intelectual conduzem ao mal social, à destruição da igreja, do estado, da família, da propriedade privada, à heresia e à revolução. O obscurantista mental pode valer-se do pensamento livre, da filosofia e da criatividade intelectual, mas disto retira inferências sociais negativas. O obscurantismo deseja manter as massas nas trevas em nome de sua salvação, para supostamente evitar a perdição. A diligência dos obscurantistas intelectuais sempre pressupõe a passividade dos obscurantistas estúpidos.”

 

 

Nicolas Berdyaev (1874-1948), filósofo e escritor russo em O obscurantismo

 

 


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