Conhecimento não definitivo

31/07/2018 20:15

"'Não descrevo o ser. Descrevo a passagem: não uma passagem de uma idade para outra ou, como diz o povo, de sete em sete anos, mas de dia para dia, de minuto a minuto.' Tem de adaptar a descrição ao momento; o seu objeto, o eu, poderia mudar de um momento para o outro, por um acaso ou de forma intencional. Por esse motivo, Montaigne define sua empresa filosófica como 'um registro de vários e mutáveis eventos e ideias incertas e, por vezes, contrárias', seja porque muda o sujeito da descrição, seja porque o eu capta os objetos 'segundo outros aspectos e considerações'. Desse modo, por vezes admitirá que talvez se contradiga, mas afirma que nunca contradiz a verdade. Especialmente neste aspecto encontra justificação toda a empresa epistemológica e moral dos Ensaios: se a sua mente pudesse estabilizar-se, agarrar a estabilidade, o registro definitivo de uma substância, a imobilidade de um conhecimento certo e definitivo, certamente o sujeito não se poria à prova, iria se dissolver e fechar no círculo de um conhecimento terminado; pelo contrário, em virtude da instabilidade estrutural do sujeito-objeto, está sempre em treinos e em testes."

 

Nicola  Panichi, Montaigne - A consciência crítica do Renascimento

 


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